Argélia: Primavera Árabe sem mudança de estação
Argel – O presidente argelino, Adbelaziz Bouteflika, pretendeu fazer das eleições legislativas desta quinta-feira, 10 de Maio, a Primavera Árabe argelina. Contra todas as expectativas o partido no poder, Frente de Libertação Nacional (FLN), e o seu parceiro na Aliança Presidencial, União Democrática Nacional (RND) liderado pelo actual primeiro-ministro, Ahmed Ouyahia, saíram reforçados obtendo uma maioria absoluta com 288 lugares dos 462 que compõem a Assembleia argelina.
Enquanto a imprensa estatal anunciava durante o dia do escrutínio uma importante afluência às urnas a imprensa internacional procurava, sem sucesso, constatar as mesmas enchentes nas mesas de voto da capital argelina, Argel. Uma vaga abstencionista seguida de outra verde islamista era a previsão mais comum sobre os resultados destas eleições.
Os partidos islamistas estavam também convencidos que obteriam um recorde eleitoral e já antecipavam, nos corredores, a composição do futuro governo islamista argelino, como se a vaga verde que atingiu os vizinhos Marrocos, Tunísia e Líbia chegasse agora à Argélia.
Quando os militantes do boicote às eleições apontavam com uma taxa de participação situada entre os 15 e 20% e os próximos da Aliança Presidencial garantiam a mesma estaria situada entre os 45 e 50%, o Ministro do Interior argelino, Daho Ould Kablia, encerrou o debate anunciado oficialmente 42,9% de participação no escrutínio. Uma decepção para os apologistas da abstenção que interpretaram precipitadamente este resultado como uma reacção dos eleitores para penalizarem os partidos no poder através das urnas, reforçando hipoteticamente os partidos da oposição e particularmente os islamistas.
No entanto, esta sexta-feira, 11 de Maio, os resultados provisórios deram uma vitória esmagadora à Aliança Presidencial, FLN e RND, afastando definitivamente o espectro de uma assembleia com um tom predominante verde. A islamista Aliança Argélia Verde (AAV) obteve apenas 48 lugares na assembleia e o radical islamista Abdallah Djaballah sete.
Alguns líderes da oposição denunciaram «irregularidades», e militantes abstencionistas «fraude científica», no escrutínio, todavia a maioria absoluta obtida pela Aliança Presidencial no parlamento foi justificada pelo receio dos argelinos reviverem o sangrento cenário dos anos 90 após a vitória dos islamistas do FIS em eleições anuladas pelos militares em 1992 que resultou em mais de 200 mil mortos durante o chamado «Decénio de Chumbo».
O grande vitorioso destas eleições é Adbelaziz Bouteflika que, por um lado, conseguiu ultrapassar a taxa de 37% de participação atingida em 2007 e, por outro, vê a sua Aliança reforçada antes da sua retirada politica prevista para 2014 com as eleições presidenciais. Consegue também, com o aval dos observadores internacionais, anunciar que a Primavera Árabe já chegou à Argélia por via da expressão democrática que, todavia, não mudou a estação.
Rui Neumann
(c) PNN Portuguese News Network
2012-05-11 22:36:44
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